A casa Soturna - Charles Dickens





Este livro ocupa um lugar de destaque entre os grandes clássicos da arte da narração, da qual Dickens sempre foi mestre consumado. No início de sua carreira, e ainda como repórter em Londres, ele conheceu profundamente a estrutura e os meandros do sistema judiciário inglês, sobre o qual mais tarde construiu este romance, contrapondo ao absurdo dessa estrutura o desenvolvimento rigorosamente lógico e perfeito entrelaçamento dos fatos que fizeram dele um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos.

A técnica narrativa de Dickens enriquece-se, neste romance, com a capacidade de criar uma atmosfera, um clima, o que não é muito frequente num autor que se ateve preferencialmente à descrição objetiva. Lembramos, como exemplo dessa habilidade de criar um clima, o capítulo em que o personagem Krook é vitimado pela combustão humana espontânea, estranho fenômeno já mencionado em textos orientais antigos e com muitas ocorrências modernas, e que constitui um dos enigmas da Parapsicologia.

Nestas páginas encontram-se algumas das figuras mais marcantes da extensa galeria de personagens dickensianos, como o patriarcal e bonachão Jarndyce (ligado ao interminável processo em torno do qual gravitam os personagens e que, sob muitos aspectos, lembra o de Kafka), a suave e abnegada Ester, o caviloso Tulkinghorn, e a figura mais trágica de toda essa galeria, a infeliz Lady Dedlock. E encontramos também alguns dos mais comoventes casos de amor dos romances de Dickens, como a ligação entre Ada e Richard, ou entre Ester e Allan.

Pela magistral combinação das histórias paralelas, que se entrecruzam em determinados momentos para tecer o desenho mais amplo do conjunto da trama, pela habilidade com que dosa o crescendo dramático do entrecho, Dickens realiza em A casa soturna um romance que os especialistas consideram o mais perfeito de sua extensa obra.